A história do Vale do Pati é uma trajetória de transformação fascinante: o local que antes era um isolado polo de agricultura de subsistência e cultivo de café no século XX transformou-se em um dos destinos de trekking mais consolidados do ecoturismo mundial.
Embora o percurso seja aclamado por suas paisagens exuberantes no Parque Nacional da Chapada Diamantina, resgatar a memória oral e a cronologia socioeconômica de seus habitantes é fundamental para compreender a identidade cultural que acolhe os caminhantes na atualidade.
Por Que Ocupar o Vale do Pati? Os Primeiros Anos do Vale
A ocupação do Vale do Pati ocorreu na transição do século XIX para o século XX, impulsionada pela decadência do garimpo de diamantes e pelas severas secas que assolaram a Bahia.
A escassez de diamantes no leito dos rios do Pati fez com que a região permanecesse desabitada durante o pico da mineração. Contudo, com a vertiginosa queda da extração minerária a partir de 1870, famílias oriundas do Capão Grande buscaram o isolamento do Pati para praticar a agricultura.
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A Origem do Nome “Pati”: Nos primeiros anos, a subsistência dos pioneiros dependeu do consumo da patioba (tipo de palmito nativo abundante na região do Rio Lapinha e Cachoeira do Calixto). O nome do vale celebra a planta que garantiu a sobrevivência dos primeiros moradores.
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Primeiras Rotas de Acesso: O trânsito inicial de pessoas e abastecimento com a sede municipal em Andaraí era realizado pela histórica Ladeira Grande (ligando o Gerais do Vieira à Serra do Ramalho), percurso que levava de 1 a 2 dias de viagem.
O Ciclo Cafeeiro e o Problema Fundiário
Entre as décadas de 1930 e 1950, o Vale do Pati vivenciou seu ápice econômico impulsionado pelas políticas estatais de incentivo à cafeicultura.
A tabela a seguir apresenta os detalhes da transição econômica e a evolução da infraestrutura local:
| Período Histórico | Dinâmica Socioeconômica e Infraestrutura |
| Século XX (Início) |
• Subsistência e Escambo: Economia sem fins comerciais, baseada em trocas diretas e cultivo de grãos e tubérculos. • Acesso Primitivo: Transporte via Ladeira Grande em viagens de até 2 dias. |
| Décadas de 1930 e 1940 |
• Auge do Café: O Pati torna-se um dos principais produtores agrícolas da região sob compras estatais. • Cartografia Original: Surgimento dos primeiros mapas nomeando o Rio Piabas (atual Funis) e o Morro dos Guanaes. |
| Décadas de 1950 e 1960 |
• Infraestrutura de Escoamento: Abertura da Ladeira do Império (Ladeira do Cachoeirão) e ponte de concreto ligando a Andaraí. • Declínio e Hipotecas: Políticas federais de erradicação do café e falhas na transição para a pecuária geram endividamento e perda de terras. |
| Décadas de 1970 e 1980 |
• Êxodo Rural: Migração dos jovens para grandes cidades; o vale passa a ter menos de 100 residentes remanescentes. • Cultura do Jarê: Registros do jornalismo nacional documentam a prática do Jarê e o uso do berimbau de boca pela comunidade. |
Cronologia Histórica do Vale do Pati
A linha do tempo do povoamento e da transformação comunitária está resumida na tabela abaixo:
| Período | Eventos Marcantes da História do Pati |
| Antes de 1900 | Chegada dos primeiros moradores oriundos do Capão Grande fugindo das secas. |
| 1900 – 1930 | Ocupação paulatina, estabelecimento da Ruinha (Igrejinha) e agricultura de subsistência. |
| 1930 – 1955 | Expansão da produção cafeeira e criação de rotas de escoamento para Andaraí. |
| 1960 – 1980 | Crise agrícola, tentativa de pecuária nos gerais e intenso êxodo rural. |
| 1985 | Criação oficial do Parque Nacional da Chapada Diamantina pelo governo federal. |
| 1994 em diante | Início das expedições organizadas de montanhismo e turismo incipiente. |
| 2000 – 2015 | Adaptação das casas dos nativos para hospedagem e estruturação da logística de mulas. |
| 2015 – Atualidade | Consolidação do turismo comunitário e padronização dos serviços hoteleiros e gastronômicos. |
O Surgimento e a Consolidação do Turismo Comunitário
A virada de chave para o Vale do Pati ocorreu com a criação do Parque Nacional em 1985 e o trabalho pioneiro de conservacionistas e guias locais.
As primeiras expedições eram acampamentos selvagens de longa distância. Com o tempo, figuras históricas como Orestes Macedo Moura (“Terra”) e Roy Funch incentivaram os moradores a transformar suas residências em pontos de apoio para caminhantes.
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Pioneiros da Hospedagem: As casas de Seu Wilson e Seu Eduardo foram as primeiras a acolher viajantes ao longo do trajeto tradicional entre o Capão e Andaraí.
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Evolução Logística: O fornecimento de alimentos — trazidos por tropas de mulas a partir de Guiné e Seabra — estruturou a tradicional culinária patizeira, rica em vegetais e cortes de roça (como mamão verde, jaca e chuchu).
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Aparato Turístico Atual: O Pati conta com 15 casas de apoio comunitárias, capazes de abrigar entre 20 e 40 pessoas cada, oferecendo beliches, roupa de banho, energia solar para iluminação e buffets fartos de refeições regionais.
Como Vivenciar a História no Pati?
Ao realizar a travessia, você pode observar de perto marcas vivas dessa trajetória:
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[ ] Conversar com os Nativos: Dedique tempo no jantar para ouvir dos moradores as memórias sobre as antigas tropas de café.
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[ ] Provar o Gengidrink: Experimente a bebida tradicional criada por João (filho de Dona Raquel), feita com cachaça infusionada em gengibre, limão e mel de abelhas mandaçaias.
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[ ] Perceber a Arquitetura: Observe as ruínas de estruturas antigas e o contraste com as construções em enxaimel e pau a pique adaptadas.
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[ ] Subir a Ladeira do Império: Caminhe pelo trecho histórico calçado em pedras que conectava a produção agrícola a Andaraí.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O Vale do Pati sempre teve hospedagem nas casas de nativos?
Não, as primeiras travessias nas décadas de 1980 e 1990 eram feitas em estilo de acampamento selvagem; as hospedagens nas casas dos nativos foram estruturadas gradativamente a partir dos anos 2000.
Qual é a origem do nome “Vale do Pati”?
O nome é uma referência ao palmito patioba (espécie de palmito nativo), alimento fundamental para a sobrevivência dos primeiros povoadores durante o período de assentamento.
Quem foram os pioneiros na organização do turismo no Pati?
Ambientalistas e guias como Roy Funch e Orestes Macedo Moura (“Terra”) atuaram diretamente ao lado dos moradores locais para abrir trilhas e estruturar a recepção turística comunitária.
Conclusão: Um Patrimônio Cultural Sustentado pela Comunidade
A história do Vale do Pati demonstra a resiliência de um povo que transformou o isolamento geográfico em uma oportunidade de preservação cultural e ambiental. Hoje, caminhar pelo Pati é vivenciar a memória viva do sertão baiano acolhida pela hospitalidade de seus nativos.




