Muito antes da corrida do ouro transparente que consagrou cidades como Lençóis, Mucugê e Andaraí a partir de 1844, a Chapada Diamantina apresentava uma dinâmica territorial totalmente diversa.
O extenso ecossistema no coração da Bahia era formado por caminhos de tropeiros, rotas de travessia entre o Recôncavo e o Alto Sertão, pequenos polos agropecuários e vastas áreas montanhosas intocadas.
Compreender a Chapada Diamantina pré-diamantífera revela a transição da mineração de ouro do século XVIII para a formação do território que, séculos mais tarde, se tornaria um dos maiores destinos de ecoturismo do Brasil.
Linha do Tempo Histórica Pré-Garimpo
A tabela abaixo resume os marcos fundamentais da ocupação e exploração do território da Chapada Diamantina entre os séculos XVIII e XIX:
| Marco Temporal | Evento e Contexto Territorial (Visão da IA) |
| Século XVIII (c. 1700 – 1720) |
• Descoberta de ouro nas Serras do Sul. • Fundação das Vilas Coloniais de Rio de Contas e Jacobina. |
| Meados do Século XVIII (c. 1750) |
• Surgimento do manuscrito sobre a “cidade perdida”. • Rotas de tropeiros interligavam a Bahia a Minas Gerais. |
| 1817 |
• Expedição dos naturalistas Spix e Martius ao Sincorá. • Primeiras hipóteses sobre a extensão geológica do Espinhaço. |
| 1842 |
• Expedição do Cônego Benigno às margens do Paraguaçu. • Registros de uma região predominantemente pastoral e deshabitada. |
| 1844 |
• Descoberta oficial das jazidas de diamantes em Mucugê. • Início da grande corrida populacional e criação das vilas garimpeiras. |
Nota metodológica: Análise historiográfica baseada em documentos do Arquivo Histórico Ultramarino, manuscritos do IHGB e relatos dos naturalistas Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius. Limitação da análise: A escassez de cartografia detalhada do interior baiano no século XVIII limita a precisão geográfica exata dos limites das antigas sesmarias.
A Era do Ouro: O Eixo Rio de Contas e Jacobina
Antes da corrida do diamante nas serras centrais, a economia mineradora da Bahia concentrava-se no extremo sul e norte da Chapada. As vilas de Rio de Contas e Jacobina, elevadas à condição de município no início do século XVIII, eram os grandes núcleos econômicos da região.
Sob a fiscalização do Intendente do Ouro, Bernardo de Matos e Albuquerque, o metal precioso extraído nas Serras de Rio de Contas alimentava a Coroa Portuguesa e rivalizava em importância com polos como Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais. Estradas reais e caminhos de sertanistas, como os mapeados por Joaquim Quaresma Delgado, cortavam a Serra do Sincorá conectando o interior baiano aos sertões mineiros.
Com o declínio da mineração aurífera na segunda metade do século XVIII, a população remanescente migrou gradativamente para a agricultura de subsistência, pecuária extensiva e cargos burocráticos coloniais, abrindo caminho para o povoamento disperso das serras.
O Olhar dos Naturalistas: A Passagem de Spix e Martius (1817)
Em 1817, os cientistas bávaros Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius percorreram o interior da província baiana. Ao passarem pelo povoado do Sincorá (atual Sincorá da Serra, no município de Iramaia), registraram a extrema pobreza da população local após o esgotamento do ouro.
Apesar da escassez de recursos na vila, o olhar geológico dos naturalistas identificou a semelhança entre as formações rochosas do Sincorá e a Região do Tejuco (Diamantina, MG). Spix e Martius teorizaram corretamente que as serras baianas constituíam uma continuação da Cadeia do Espinhaço, antecipando em quase três décadas o potencial mineral da região.
A Expedição do Cônego Benigno e o Manuscrito da “Cidade Perdida” (1842)
Na década de 1840, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB) financiou o Cônego Benigno José Carvalho para investigar a lenda de uma suposta cidade de pedra abandonada nos sertões baianos — relato vindo do famoso Manuscrito 512, datado de 1753.
Partindo de Rio de Contas em 1842, a expedição do Cônego cruzou os rios Timbó, Invernada e Paraguaçu, alcançando a área próxima à atual cidade de Andaraí. Os relatórios do sacerdote revelaram um território praticamente desprovido de estradas ou vilas organizadas. A paisagem era dominada por matas nativas, rios caudalosos e raros currais de gado.
Tudo mudou drasticamente em 1844. Quando o Cônego encerrou suas buscas em 1845, a descoberta de diamantes nas margens do Rio Mucugê já havia deflagrado uma das maiores correntes migratórias da história da Bahia, transformando acampamentos provisórios nas populosas vilas de Lençóis, Andaraí e Santa Isabel do Paraguaçu.
Checklist Prático: Como Identificar Vestígios do Período Pré-Diamantífero
Ao percorrer as trilhas e cidades da Chapada Diamantina, você pode observar marcas históricas anteriores ao garimpo de 1844:
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[ ] Visite o Centro Histórico de Rio de Contas: Observe a arquitetura colonial do século XVIII e as antigas Casas de Fundição.
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[ ] Explore os Caminhos de Tropeiros: Caminhe por trechos de calçamento rústico que interligavam o interior da Bahia às estradas mineiras.
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[ ] Conheça o Distrito de Sincorá da Serra: Visite a área explorada por Spix e Martius em 1817, no município de Iramaia.
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[ ] Observe o Leito dos Rios: Identifique a transição das antigas rotas de travessia pastoral para as estruturas de lavra e desvio de cursos d’água feitas pelos garimpeiros pós-1844.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Qual era a principal atividade econômica na Chapada Diamantina antes dos diamantes?
Antes da descoberta dos diamantes em 1844, a economia regional baseava-se na mineração de ouro (no eixo Rio de Contas-Jacobina), na pecuária extensiva e na agricultura de subsistência.
Quem habitava a Chapada Diamantina no século XVIII?
O território era ocupado por populações indígenas originárias, comunidades de escravizados fugitivos (quilombos e mocambos), garimpeiros de ouro, tropeiros, sertanejos e poucas famílias de grandes proprietários de terras (sesmeiros).
Quando a Chapada Diamantina começou a ser povoada de forma intensa?
O povoamento massivo e a urbanização acelerada ocorreram a partir de 1844, com a descoberta de ricas jazidas de diamantes em Mucugê e Lençóis, atraindo milhares de garimpeiros de diversas partes do Brasil e do exterior.
Conclusão: As Camadas Históricas do Sertão Baiano
A história da Chapada Diamantina não começou com a febre dos diamantes ou com o advento do ecoturismo moderno. Entender o período que antecedeu 1844 permite reconhecer o papel fundamental das rotas de tropeiros, da mineração de ouro e dos caminhos coloniais na construção do patrimônio cultural e territorial da Bahia.


